"E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem
que pelo seu muito falar serão ouvidos. Não vos assemelheis pois, a eles;porque Deus, o vosso pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais"
(Mateus 6:7-8)
Não se duvida de que, entre os escribas judeus, havia uma tendência
por preces longas e pretensiosas. O autor do livro apócrifo Ecclesiasticus (escrito no intervalo entre o Velho e o Novo Testamento), instava seus
leitores para que "não se dessem a muita tagarelice", quando orassem. Jesus repreendeu os escribas do seu tempo, cujas preces públicas cresciam em extensão e pretensão conforme suas vidas privadas se tornavam mais repreensíveis (Marcos 12:40;Lucas 20:47). Mesmo do lado pagão, Sêneca falou daqueles seus contemporâneos que eram culpados de "fatigarem os deuses" com suas intermináveis petições.
Poderíamos ser tentados a acreditar (dada a ênfase dos versículos precedentes,6:2-6) que é a este tipo de postura hipócrita na >oração que Jesus se refere,se não fossem as claras palavras de >nosso texto. Há uma mudança óbvia no versículo.
Em vez da hipocrisia dos fariseus, Jesus se volta para reprovar a
ignorância dos gentios. Ao contrário dos hipócritas judeus, cuja única preocupação era com o aplauso da multidão, esses gentios realmente queriam ser ouvidos pelos poderes dos céus (versículo 7b), mas eram impedidos em seus esforços pela ignorância fatal da real natureza de Deus (veja Atos 17:22-23).
As preces pagãs nasceram da natureza das divindades pagãs. Os deuses da Grécia e de Roma não tinham qualquer semelhança com Jeová dos Exércitos. Eles eram moralmente indiferentes, caprichosos e imprevisíveis, geralmente desinteressados das ocupações dos homens (veja 1 Reis 18:27). Os gentios estavam geralmente aterrorizados com seus deuses e procuravam aplacá-los ou ganhar sua atenção pela repetição interminável de fórmulas rituais. Pensavam que estes encantamentos tivessem um poder totalmente à parte da atitude ou do caráter do suplicante.
O adorador pagão não podia depositar nenhuma esperança de ser ouvido, quer no senso de justiça, quer na compaixão dos deuses, uma vez que eles eram desprovidos de ambos. Tudo dependia das fórmulas corretas. O historiador Will Durant descreveu a religião grega como "um sistema de mágica mais do que de ética" (The Story of Civilization, vol. II, p. 201). Da religião romana, ele escreveu:"Ajudou esta religião a moral romana? De certo modo, ela era imoral: sua ênfase no ritual sugeria que os deuses recompensavam não a bondade, mas as oferendas e as fórmulas" (The Story of Civilization, vol. III, pág. 67).
A chave da prece, para os gentios, não estava na sinceridade de seus espíritos,ou na piedade de suas vidas, mas em "muito falar". As "vãs repetições" que Jesus rejeita não se referem, primariamente, à mera verbosidade, e certamente não à sincera persistência na oração, que Jesus tanto exemplificou (Mateus 26:36-46) como ordenou (Lucas 18:1-8), mas a uma crença de que o segredo da prece efetiva está nas palavras antes que na vida e na atitude do adorador.Repetições negligentes não empenham o coração, o qual é absolutamente essencial para a comunicação com Deus (João 4:24). Temos que chegar a ele com uma devoção pura.
O princípio que Jesus expõe aqui é violado, hoje em dia, quando começamos a pensar que o simples número de nossas orações é mais importante do que o espírito que damos a elas, e que o segredo de sua força está na sua formulação correta. Deus não é uma máquina. Parece-me que há um pouco disso presente em nossa insistência mecânica que uma oração não é aceitável a não ser que ela seja concluída com as palavras: "em nome de Jesus" ou outra equivalente.Nem é preciso dizer que precisamos, continuamente, confessar e estar cientes da impossibilidade de acesso a Deus, exceto pela intercessão de seu Filho. É,também, edificante lembrarmo-nos, mesmo em nossas orações, que Jesus é nosso mediador com o Pai, mas "em nome de Jesus" não é uma fórmula mágica calculada
para garantir que Deus aceite nossa oração, quer queira, quer não. Como no caso do batismo "em nome de Jesus Cristo" (Atos 2:38) ou fazendo tudo "em nome do Senhor Jesus" (Colossenses 3:17), é algo que você faz, não só o que você diz. Orar "em nome de Jesus" (João 14:13) tem algumas importantes implicações para nossa atitude e comportamento. É orar com uma viva consciência da mediação redentora de nosso Senhor (João 14:6). É, também, orar com espírito de submissão a sua vontade, um espírito que não quer pedir nada que seja contrário a sua natureza e propósito eterno (1 João 3:22; 5:14). Nossos balidos carnais na direção de Deus não ficarão mais santificados, porque terminamos nossa oração com o esperado "em nome de Jesus" (Tiago 4:3), do que um "batismo",executado contrariamente às instruções de Deus, será tornado santo porque alguém pronuncia que ele está sendo feito "em nome de Jesus Cristo." Nossa distraída recitação de palavras "de oração", quer seja rica em conteúdo ou bela de expressão,não nos abrirá as portas do céu simplesmente porque elas possuem a "forma"certa.
Oração, no reino do céu, é simplesmente a conversa sincera e aberta, contudo reverente, de um filho com seu Pai, um Pai que ele sabe está ansioso e alegre em ouvi-lo.