NA CAVERNA DA DEPRESSÃO

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Eu fiquei impressionado com o Hino 380 que foi baseado neste salmo (142). Eu me lembro quando nós ensinamos esse hino na Igreja em que trabalhávamos em Brasília, quando acabamos de cantar o hino foi tão impressionante que um senhor se levantou e disse em alta voz, puxa que hino bonito! Um hino que a igreja conhece, até cantamos na Quinta-feira, é um hino muito bonito. Ele está baseado no salmo 142, oração no meio de grande perigo. Por favor abram a sua bíblia no salmo 142 e coloquem-se em pé para ouvir a leitura.

Ao Senhor ergo a minha voz e clamo, com a minha voz suplico ao Senhor. 

Derramo perante ele a minha queixa, à sua presença exponho a minha tribulação. 

Quando dentro de mim me esmorece o espírito, conheces a minha vereda. No caminho em que ando, me ocultam armadilha. 

Olha à minha direita e vê, pois não há quem me conheça, nenhum lugar de refúgio, ninguém que por mim se interesse. 

A ti clamo, Senhor, e digo: tu és o meu refúgio, o meu quinhão na terra dos viventes. 

Atende o meu clamor, pois me vejo muito fraco. Livra-me dos meus perseguidores, porque são mais fortes do que eu. 

Tira a minha alma do cárcere, para que eu dê graças ao teu nome; os justo me rodearão, quando me fizeres esse bem. 

O título do hino é este "Masquil de Davi quando estava na caverna". O episódio está no primeiro livro de Samuel no capítulo 22. Ele está fugindo de Saul que procura matá-lo. Parece que este episódio marcou mais a vida de Davi do que a tentativa do seu próprio filho de destroná-lo, porque este é o oitavo e último dos salmos que ele compôs queixando-se da situação que viveu sob a perseguição de Saul. Ele está na caverna da depressão, sente profundamente, porque é jovem, o peso sobre seus ombros, a inimizade do pai de um amigo e como ele é caçado como se fosse um criminoso. Está desacompanhado, tem medo de morrer e vê que o perigo é muito grande para ele. No entanto, o título do Salmo é masquil de Davi. Masquil é um dos termos técnicos do livro de salmos para designar uma composição poética para ensinar uma lição. Ora, só aqui nós já podemos aprender a lição. Esta pessoa está em perigo de vida e em vez de ficar chorando miséria e ficar se queixando ele quer ensinar alguma coisa aos outros. Devemos prestar atenção no texto do salmo porque à semelhança de Davi muitas vezes passamos pela caverna, passamos pela depressão. Se você nunca passou pela caverna da depressão eu não sei se lhe dou os parabéns ou digo para se preocupar, quem é que nunca se sentiu aflito? Quem nunca sentiu a hostilidade de um inimigo poderoso? Quem nunca enfrentou uma incompreensão no trabalho ou dentro de casa? Quem nunca viu um ente querido acometido de uma doença terminal? Quem nunca viu a doença, a incompreensão, a doença, a discórdia baterem à sua porta? Quem é que nunca esteve numa caverna? Davi estava na caverna da depressão, seu salmo é uma expressão profunda de alguém que está muito deprimido, mas ao mesmo tempo uma expressão de confiança em Deus que nos ajuda a entender como devemos nos comportar. Analisando este salmo eu gostaria de ver com os irmãos dentro da estrutura dele três aspectos, primeiro, a situação de um homem na caverna, segundo, a atitude de um homem na caverna, e terceiro, o pedido de um homem na caverna.

Vejamos a situação de um homem na caverna, versículos 3 e 4, ele enfrenta um Saul enlouquecido. Queiram me acompanhar ao primeiro livro de Samuel 18:6-11

Sucedeu, porém, que, vindo Saul e seu exército, e voltando também Davi de ferir os filisteus, as mulheres de todas as cidades de Israel saíram ao encontro do rei Saul, cantando e dançando, com tambores, com júbilo e com instrumentos de música. 

As mulheres se alegravam e, cantando alternadamente diziam: Saul feriu os seus milhares, porém Davi os seus dez milhares. 

Então se indignou muito, pois estas palavras lhe desagradaram em extremo; e disse: Dez milhares deram elas a Davi, e a mim somente milhares; na verdade, que lhe falta, senão o reino? 

Daquele dia em diante, Saul não via a Davi com bons olhos. 

No dia seguinte um espírito maligno da parte de Deus se apossou de Saul, que teve uma crise de raiva em casa; e Davi, como nos outros dias, dedilhava a harpa; Saul, porém, trazia na mão uma lança, 

Que arrojou, dizendo: Encravarei a Davi na parede. Porém Davi se desviou dele por duas vezes. 

Começa aqui o processo de desintegração da personalidade de Saul e não é um problema emocional, é um problema espiritual. A situação então de Davi é desesperadora porque o que sucede é que ele vem fugindo de Saul e este Salmo, o oitavo, em que ele expressa o seu abandono, retrata muito bem o que se passa no seu coração. A situação é desesperadora. Vejam o que ele diz no versículo 3, logo no início: Quando dentro de mim esmorece o meu espírito. Outra versão diz, Linguagem de Hoje: quando eu estou a ponto de perder a esperança. Nós pensamos que esses grandes vultos da Bíblia eram pessoas inabaláveis. Que podiam sofrer as maiores catástrofes pessoais, sem sequer ter uma marca de preocupação no rosto. Mas ele diz quando eu estou a ponto de perder a esperança. Ora, passar por aflições, sentir-se angustiado e desesperado, não é sinal de falta de fé. Isto pode acontecer com qualquer pessoa e com a melhor delas. Marcos, capítulo 14, versículo 33, diz isto, sobre Jesus: 

E levou consigo a Pedro, a Tiago e a João, e começou a ter pavor e a angustiar-se. 

Não é Judas quem está apavorado e nem se angustiando, é Jesus. Não é de se estranhar que Davi também se sentisse a ponto de perder a esperança e não devemos presumir também que quando o peso sobre os nossos ombros é tão grande que nos sentimos a ponto de nos desesperar que estejamos negando a nossa fé, nenhum de nós pode presumir que seja mais espiritual que Jesus Cristo e tampouco presumir que tenha uma estrutura superior à sua. Ele continua, Davi, a dizer assim, quando dentro de mim esmorece o meu espírito, quando estou a ponto de perder a esperança, então tu conheces a minha vereda. 

Há uma explicação que precisa ser dada. Geralmente, no texto hebraico, nas construções verbais a ênfase vem no verbo, o verbo é muito forte, temos uma construção aqui em que a ênfase está no pronome, no tu, é como se Davi dissesse: quando estou a ponto de perder a esperança então tu, tu mesmo, conheces a minha situação. O tu é enfático. As pessoas podem não saber o que se passa dentro dele mas Deus sabe. Pode ser uma pressão muito grande e ele está a ponto de perder a esperança mas Deus não ignora, o próprio Deus, não é como se ele estivesse inacessível e dissesse: olha, vai aí um anjo, um office boy espiritual para saber o que se passa com Davi. É o próprio Deus quem conhece. Isto também, meus irmãos, é um alento muito grande para nós porque se viermos a passar por aflições e tribulações. Esta é a mensagem bíblica – Deus conhece. Isto não lhe é ignorado. Em alguns momentos podemos parecer sozinhos. No versículo 4 ele diz, olha a mão direita e vê. Infelizmente, no hino 380 está olho, olho eu, mas preste atenção que é olha, Davi está dizendo para Deus, olha tu, olha para a minha direita e vê. Por que Davi está pedindo para Deus olhar para o seu lado direito? Porque quando alguém aparecia ao tribunal judaico, hebreu, para se defender o seu advogado ficava ao lado direito, ou seja, o lado direito era o lugar do advogado. Agora Davi está diante de Deus, acusado pelo próprio Rei, com o exército do rei procurando matá-lo e diz a Deus, eu não tenho quem me defenda. Não tenho ninguém ao meu lado, olha para a minha mão direita, olha para o lugar onde deveria estar alguém para me defender, em outras palavras o que ele está dizendo é o seguinte: eu estou a ponto de perder a esperança, estou abandonado. Esta é a situação de um homem na caverna. Quem já passou pela caverna sabe o que é isso, de se sentir abandonado, de se sentir rejeitado, que é pior do que abandonado e de às vezes, como Davi, estar a ponto de perder as esperanças. Volto a dizer, se você nunca passou pela caverna não sei se dou os parabéns por ser um supercrente ou pêsames porque alguma coisa está errada, mas se você algum dia passou e se você passa, você sabe o que é isto. Abandono, desamparo, prestes a perder as esperanças.

Mas se a história terminasse aqui seria trágica e iríamos para casa chorar a nossa miséria mas o salmo continua e nos mostra em segundo lugar a atitude de um homem na caverna. Versículos 1, 2 e 5. Com a minha voz clamo ao Senhor, com a minha voz ao Senhor suplico, derramo perante ele a minha queixa, diante dele exponho a minha tribulação. A ti ó Senhor clamei e disse, tu és o meu refúgio, o meu quinhão na terra dos viventes. Vimos a situação de um homem na caverna e agora vamos à nossa segunda parte. Qual é a atitude de um homem na caverna? Arrancar os cabelos? Dar testada na parede? Torcer as mãos? Afligir-se? A única alternativa é esta de Davi, ele se entrega à oração. Do lado de fora da caverna estão Saul e o seu exército, do lado de dentro ele está sozinho. Quando estamos na caverna estamos inferiorizados e nossa única alternativa é a oração. É muito bonito o verbo clamo ao Senhor, no texto hebraico o verbo clamar dá a idéia de gritar em alta voz, não é aquela oração murmurada, às vezes nós oramos assim e tem um vizinho do nossa lado na igreja tentando entender o que estamos orando, mas a oração dele vem lá de dentro, como um grito e mais uma questão que achei fantástica. O verbo significa o urro do leão ferido acossado por caçadores e prestes a morrer. Ele se vê como um animal acossado por caçadores prestes a morrer. Não é uma oração de desencargo de consciência, é um urro que vem de dentro de sua alma, é a oração do desesperado. Bem, é uma situação muito aflitiva pois a caverna, à semelhança do deserto é um dos lugares onde mais nós descobrimos a graça de Deus e é um dos lugares onde se pode ter a experiência mais profunda com Deus, mas clamar e gritar não significa falta de fé, o silêncio é que pode ser o desespero, a entrega dos ponto.

Li o relato de alguém que foi a um safári na África e esses safáris não para caça mas para fotografia e ele disse que o guia, fazendo uma explicação de como vivem os animais na África, disse que quando vem o período de seca e eles andam longamente a procura de água, quando não a encontram eles se deitam sob uma árvore para esperar a morte, sentem por instinto que não há água e vão morrer, entregam os pontos, deitam e ficam esperando a morte chegar. Devemos evitar confundir as coisas, por vezes a pessoa é apática, entregou os pontos e nós pensamos que aquilo é fé, ou a pessoa está expressando toda a sua inquietação e nós dizemos, que falta de fé, só tem Deus para gritar! Só tem Deus para abrir o seu coração! Davi nos ensina qual é a atitude de uma pessoa na caverna, é abrir o coração diante de Deus, não mascarar os sentimentos, porque ficou muito arraigado entre nós a idéia de que crente não tem problema e se tiver problema é porque está em pecado, que a nossa vida é uma vida de sorriso constantemente afivelado no rosto. Tudo bem? Tudo bem sim. Não podemos dizer que temos problemas e se dissermos a pessoa que perguntou até vai embora, mas aprendemos que na caverna aí está melhor lugar para dialogar com Deus, para compartir as emoções com Deus. Jesus esteve na caverna como vimos em Marcos 14:33, começou a angustiar-se e a ter pavor. Por isso nós lemos em Hebreus 5:7

Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte, e tendo sido ouvido por causa da sua piedade 

Ele também orou, também chorou, também gritou, também esteve na caverna por isso quando abrimos o coração para com Deus não oramos a um Deus distante e inacessível. Os deuses gregos eram impassíveis, eram apáticos, ele não sentia, o Deus cristão é um Deus não apenas simpático mas é um Deus empático, é um Deus que sofre com a pessoa, ele sabe o que é sofrer porque a Segunda pessoa da trindade também esteve na caverna, também foi cassado, também chorou, também se afligiu. O que faz uma pessoa na caverna? Ela se abandona aos cuidados de Deus.

Agora o último aspecto do nosso salmo, o pedido do homem na caverna, versículos 5 a 7. Sua palavra no versículo 6, atende ao meu clamor, ele quer uma coisa, ele quer algo, ele diz aqui: estou muito abatido. Literalmente, estou perdendo as forças, se o Senhor não me socorrer não vou demorar muito. Atende ao meu clamor porque estou perdendo as forças. Continua a sua oração no versículo 6, livra-me dos meus perseguidores. Também a expressão literal é esta, livra-me dos cães de caça. Já viram aqueles filmes ou desenhos animados daqueles cães atrás de uma raposa, é assim que ele se sente. Livra-me dos cães de caça que estão nos meus calcanhares. Não deve ser muito fácil ter um bando de pit bull correndo atrás de si, é assim que ele se sente, tenho esse bando de pit bulls atrás de mim e aí, continua ele, porque são mais fortes do que eu. 

Ah! Esse problema do triunfalismo evangélico. Amarra Satanás e tantas outras coisas. Eu estava no interior do Pará, em Pagominas e ia para Marabá, pior viagem da minha vida, trezentos quilômetros que duraram 12 horas por uma estrada de terra, fiquei com terra até na obturação dos dentes, mas o ônibus saia as 4 da manhã, não tinha como dormir, e fiquei assistindo televisão e apareceu um programa que dizia que era programa evangélico, eu já tinha ouvido falar da aeróbica do Senhor, do padre Marcelo, e naquele dia eu vi o karatê do senhor de um pastor, como aplicar golpes de karatê em Satanás. Não acredito que vi aquilo. Como imobilizá-lo, como jogá-lo no chão. Que ridículo. Uns amarram com uma palavra e outras dão golpe de karatê e a expressão de Davi, eles são mais fortes do que eu. Quem já viveu sob intensa opressão, ou quem já foi fortemente tentado, sabe muito bem que não se mobiliza Satanás com chave de braço e nem se amarra com uma palavra. Fomos feitos, segundo o salmo 8, pouco abaixo dos anjos e ele é um anjo, caído, mas é um anjo e é mais forte do que nós. O diabo, vosso adversário anda ao vosso redor rugindo como leão, não diz que ele anda como gatinho doméstico fugindo de vós e quantas vezes a pressão é tão grande que dizemos como Davi, olha, eu não vou durar muito, eles são mais fortes do que eu. Nós não podemos viver neste triunfalismo de que nós podemos resolver com uma frase feita. Está amarrado em nome de Jesus ou, não sou bom de karatê então não posso nem lhes mostrar como no karatê do senhor em Satanás, mas este reconhecimento, eu estou desesperado, vou morrer, preciso de ajuda. Ele continua, tira-me da prisão. Ele se sente como alguém aprisionado. Um dos piores lugares do mundo é uma prisão e é assim que ele se sente, ele não está num recinto numa poltrona estofada, ar condicionado, compondo uma poesia., ele está numa caverna e se sente numa prisão e aí pede, tira-me da prisão, livra-me e quando isso acontecer para que eu louve o teu nome. Quando eu experimentar a libertação não vou achar que o Senhor fez a obrigação, vou louvar o teu nome e os justos me rodearão pois me farás muito bem.

O pedido de um homem na caverna é uma declaração de confiança em Deus, integral, e uma disposição de testemunhar o que Deus fez na sua vida. Mas vamos ao fim. Como terminou a história? O fim da história está em I Samuel 22:1-2, os irmãos tem aí o cântico de Davi em ação de graças. Como ele foi libertado. E quando ele estava na caverna e se sentia sozinho, completamente abandonado, esta caverna era a caverna de Adulão. Diz o texto bíblico que todo endividado, amargurado, ou seja, hoje seria quase toda a população brasileira a não ser uns poucos, um grupo enorme foi procurar por Davi e este grupo que procurou por Davi quando estava na caverna e se juntou a ele formou o núcleo que garantiu o seu reino depois, foram os homens de confiança de Davi e que coisa fantástica, num dos momentos mais dolorosos da sua vida ele recebe o socorro e o livramento de Deus porque o próprio Saul reconhece como estava errado mas Davi recebe a solidariedade de amigos que vão acompanhá-lo por toda a sua vida.

Passar pela caverna não é tão miserável assim. Pode ser uma experiência profunda quando se pede o livramento e quando se reconhece o livramento. Fé não é estoicismo, ser impassível. Zenon, não o que jogou no Guarani, um filósofo passado era estóico (estóico não sentia dor) e ele foi tornado escravo. Seu Senhor pegou-lhe o braço e foi torcendo, torcendo para ver se a filosofia de Zenon era compatível com o seu procedimento e quebrou o braço de Zenon, então, como bom estóico ele disse, o meu Senhor quebrou o meu braço eu não vou poder servir bem ao meu Senhor. Isso não é um filósofo, isto é um tolo, porque se quebrarem o meu braço vou gritar um bocado. Algumas pessoas confundem fé com estoicismo, apanham e agüentam calado. A Bíblia não nos exorta a sermos estóicos mas a abrirmos o coração com Deus e fé é abrir o coração com Deus e orar como Davi, eu estou muito abatido, me livra se não eu vou morrer. Nós aprendemos isto na experiência de Davi: podemos entrar na caverna, nós podemos passar um tempo na caverna, mas nós nunca ficaremos na caverna, ela não é o nosso lugar. O lugar de Davi não era a caverna mas o trono. Deus o tirou de lá e confirmou o que prometera a ele, se você está na caverna isto é provisório, não é o seu lugar, você está lá para aprender alguma coisa e aprofundar a sua comunhão com Deus e lembre-se, e são com essas palavras que eu quero terminar a mensagem, de I Coríntios 10:13, "Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar." Podemos estar na caverna mas nunca estaremos desamparados.


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